Resenha: Graffiti Moon


Lucy está olhando os pássaros. Eu a observo e tento imaginar o que ela está pensando. Sonhando com um cara que não existe, eu acho. Um cara com um oceano jorrando da lata de spray, palavras jorrando da boca, dizendo coisas que ela quer ouvir. Eu me pergunto como será o Sombra que ela imagina.
Que atire a primeira pedra quem nunca teve um amor platônico. A protagonista de Graffiti Moon, Lucy, também faz parte deste clube. O problema é que ela nunca sequer viu o rosto do ser amado. Apaixonou-se pelas ideias, sonhos, emoções e paixões expressas nos grafites que o autodenominado Sombra espalha pela cidade. Decidida, Lucy empreende uma busca pelo habilidoso grafiteiro ajudada por Ed – o cara em que ela deu um soco no nariz no primeiro (e último) encontro deles. O que ela não vai demorar a perceber, é que o que tanto procura está mais perto do que imagina. E pode não ser bem o que sonhava.

Lançado no Brasil pela Ed. Valentina, Graffiti Moon, de Cath Crowley é um romance juvenil delicioso.  A estória pode parecer um tanto simplória, mas a narrativa é tão rica, tão poética e envolvente, que torna o livro único, especial. O estilo de escrita da autora é realmente maravilhoso, pura poesia.
E o meu cérebro desligou e as minhas mãos ligaram e eu fugi para o muro: pintei um fantasma preso numa garrafa. Dei um passo para trás, para olhar o fantasma, e percebi que o triste não era que ele estava ficando sem ar. O triste era ele ter ar suficiente para a vida toda naquele espaço tão pequeno. O que você estava pensando, fantasma? Se deixando aprisionar desse jeito?
Lucy é uma romântica incurável. Seu encontro com Ed deu mais errado por causa das altas expectativas que ela tinha, do que por causa do que ele fez. Ao mesmo tempo que é uma sonhadora com alma de artista, ela é decidida e forte, sem se abalar pela opinião alheia. Com os pais juntos-mas-separados e o fim do colegial, o fascínio pelo Sombra é a única coisa constante em meio à tantas mudanças. O que ela não imagina é que seu porto seguro está tão perdido quanto ela.

Ed está cheio de problemas. Largou a escola, acabou de perder seu guia e um dos melhores amigos, foi demitido. Para ajudar a mãe a pagar o aluguel, cogita cruzar a linha do que é certo e errado. Sua via de escape é a arte, o grafite, por meio do qual, juntamente com Leo (que se auto  proclama Poeta), extravasa a miscelânea de sentimentos que não cabe mais dentro de si.
Ela olha para o muro e olha de volta para a minha orelha, e eu não sei se ela me vê na pintura ou não. Como ela pode não me ver ali? É tudo o que eu sou, um cara na praia, tomando uma série na cabeça e procurando um jeito de nadar.
O livro ora é contado do ponto de vista de Ed, ora de Lucy, com alguns poema ocasionais do poeta. A leitura é rápida e agrada pela qualidade do texto (realmente me apaixonei pelo estilo poético da autora – o livro está cheio de marcações das minhas quotes preferidas). As conversas dos dois são ótimas e o ritmo da estória também. Uma ótima escolha para passar o tempo e animar o coração.
E, no escuro, ela podia ser uma garota diferente, eu podia ser um cara diferente. Podíamos ser duas pessoas nadando pela pintura de uma música.

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